Muda de vida...
Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de
Mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar
Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens...que ser
assim?...
Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de
mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar
Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens... que ser
assim?...
Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver
Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de
mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar
António Variações
... eu quero mais...
A maravilha da vida!...

Desvia a tua atenção para a maravilha da vida e a vida se te não esgotará. Economiza os teus «porquês» e «para quê», porque como na embriaguez só já paras na morte. Mas se insistes em chegar a Deus, submete-o ao teu questionar e verás como ele fica desnorteado. Porque o teu questionar vai para lá dele e desvanece-se no vazio. Aceita a vida, que ela é bastante para qualquer questionar. E poderás então adormecer porque há aí verdade que chegue. Dorme.
Vive o dia de hoje!
Não penses para amanhã. Não lembres o que foi de ontem. A memória teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje é tão efémero. Mesmo o que se pensa para amanhã é para já ter sido, que é o que desejamos que seja logo que for. É o tempo de Deus que não tem futuro nem passado. Foi o que dele nós escolhemos no sonho do nosso absoluto.
Não penses para amanhã na urgência de seres agora.
Mesmo logo à tarde é muito tarde.
Tudo o que és em ti para seres, vê se o és neste instante.
Porque antes e depois tudo é morte e insensatez.
Não esperes, sê agora.
Lê os jornais. O futuro é o embrulho que fizeres com eles ou o papel urgente da retrete quando não houver outro.
Vergílio Ferreira, in 'Escrever'
O feio tem mais encanto que o belo...
Por vezes existe nas pessoas ou nas coisas um charme invisível, uma graça natural que não pôde ser definida, a que somos obrigados a chamar o «não sei o quê». Parece-me que é um efeito que deriva principalmente da surpresa. Sensibiliza-nos o facto de uma pessoa nos agradar mais do que deveria inicialmente e somos agradavelmente surpreendidos porque superou os defeitos que os nossos olhos nos mostravam e que o coração já não acredita. Esta é a razão porque as mulheres feias possuem muitas vezes encantos que raramente as mulheres belas possuem, porque uma bela pessoa geralmente faz o contrário daquilo que esperávamos; começa a parecer-nos menos estimável. Depois de nos ter surpreendido positivamente, surpreende-nos negativamente; mas a boa impressão é antiga e a do mal, recente: assim, as pessoas belas raramente despertam grandes paixões, quase sempre restringidas às que possuem encantos, ou seja, dons que não esperaríamos de modo nenhum e que não tinhamos motivos para esperar.
Baron de Montesquieu, in 'Ensaio Sobre o Gosto'
A desgraça do sonhador...
E vocês sabem o que é um sonhador, cavalheiros? É um pecado personificado, uma tragédia misteriosa, escura e selvagem, com todos os seus horrores frenéticos, catástrofes, devaneios e fins infelizes... um sonhador é sempre um tipo difícil de pessoa porque ele é enormemente imprevisível: umas vezes muito alegre, às vezes muito triste, às vezes rude, noutras muito compreensivo e enternecedor, num momento um egoísta e noutro capaz dos mais honoráveis sentimentos... não é uma vida assim uma tragédia? Não é isto um pecado, um horror? Não é uma caricatura?
E não somos todos mais ou menos sonhadores?
*
Fiodor Dostoievski, in 'Escritos Ocasionais'
defeitos e virtudes...
Assembleia na Carpintaria: defeitos e virtudes
Contam que na carpintaria houve uma vez uma estranha assembleia. Foi uma reunião das ferramentas para acertarem as suas diferenças.
O martelo exerceu a presidência, mas os participantes notificaram-lhe que teria que renunciar. A causa? Fazia demasiado barulho e, além do mais, passava todo o tempo a golpear. O martelo aceitou a sua culpa, mas pediu que também fosse expulso o parafuso, dizendo que ele dava muitas voltas para conseguir algo.
Diante do ataque, o parafuso concordou, mas por sua vez, pediu a expulsão da lixa. Dizia que ela era muito áspera no tratamento com os demais. A lixa acatou, com a condição de que se expulsasse a trena, que sempre media os outros segundo a sua medida, como se fora a única perfeita.
Nesse momento entrou o carpinteiro, juntou o material e iniciou o seu trabalho. Utilizou o martelo, a lixa, a trena e o parafuso. Finalmente, a rústica madeira se converteu num fino móvel. Quando a carpintaria ficou novamente só, a assembleia reactivou a discussão. Foi então que o serrote tomou a palavra e disse:
- Senhores, ficou demonstrado que temos defeitos, mas o carpinteiro trabalha com nossas qualidades, com nossos pontos valiosos. Assim, não pensemos em nossos pontos fracos, e concentremo-nos em nossos pontos fortes.
A assembleia entendeu que o martelo era forte, o parafuso unia e dava força, a lixa era especial para limar e afinar asperezas e a trena era precisa e exacta. Sentiram-se então como uma equipe capaz de produzir móveis de qualidade. Sentiram alegria pela oportunidade de trabalhar juntos.
Ocorre o mesmo com os seres humanos. Quando uma pessoa busca defeitos em outra, a situação torna-se tensa e negativa. Ao contrário, quando se busca com sinceridade os pontos fortes dos outros, florescem as melhores conquistas humanas.
É fácil encontrar defeitos. Qualquer um pode fazê-lo. Mas encontrar qualidades, isto é para os sábios.
what will you say?
What Will You Say?
Jeff Buckley
pedras e flores...
Hoje a vida passa como um barco
Ilha de náufragos esquecida no mar
E o tempo é nada haver sentido tudo
O que por nada ser nos faz mudar
Hoje o mundo é o revés de um sonho
Que um sono mais profundo fez esquecer
Para quê querer das coisas a razão
Se quase nada tem razão de ser
O luar traz silêncios e disparos
E carícias fugazes e horrores
E morre-se num canto de um poema
Por isso e outras coisa dão-se flores
Bebe-se vinho e dorme-se ao relento
E liberta-se o grito que vier
Pra se ouvir longe e perto, e dentro
Conserva-se o silêncio, o que se puder
E alguma vez ainda se acredita
Na força da montanha céu adentro
E na canção do mar por ser bonita
E nas asas que inventa, cores ao vento
Mas hoje voam pássaros sem asas
Na terra desabrocham cores de guerra
E hoje as flores rolam pelo chão
Como se fossem pedras...
Mafalda Veiga
eu e a água...
A água arrepiada pelo vento
A água e seu cochicho
A água e seu rugido
A água e seu silêncio
A água me contou muitos segredos
Guardou os meus segredos
Refez os meus desenhos
Trouxe e levou meus medos
A grande mãe me viu num quarto cheio d'água
Num enorme quarto lindo e cheio d'água
E eu nunca me afogava
O mar total e eu dentro do eterno ventre
E a voz do meu pai, voz de muita águas
Depois o rio passa
Eu e água, eu e água
Eu
Cachoeira, lago, onda, gota
Chuva miúda, fonte, neve, mar
A vida que me é dada
Eu e água
Água
Lava as mazelas do mundo
E lava a minha alma...
by Caetano Veloso
o vaso...
O VASO
Nada, nada, nada.
A impaciência torna-nos imprudentes e pior: incompetente, ele fora incompetente.É impossível ser eficaz assim. Os pacientes acertam no alvo porque só atiram quando o alvo está perto, a um metro. Não se trata de boa pontaria, é pura e simplesmente paciência. Esperar que a presa se aproxime.
Se ela está lá ao fundo não corras atrás, porque ela ouve os passos e vê o teu ar apressado, a tua ânsia. Nenhuma presa é estúpida, tudo o que tem medo percebe; ter medo acelera o processo de entender, e se a presa tem medo compreende, percebe tudo. Se corres atrás dela, ela foge: já ouviste falar deste fenómeno, não?
Espera, sim, no teu canto, se não correres atrás a presa não foge. Se não correres atrás a presa não tem medo, e se não tem medo não percebe, se não tem medo fica estúpida, não trabalha, não se esforça, não se esconde, entedia-se, senta-se, tenta uma sesta, adormece. Aí, disparas.
Ah, mas ele não. Incompetente: não se apaixonava, ou melhor: não conseguia manter esse estado. Porquê tanta pressa? Tanta impaciência. Lá estava ele de novo frente aquela mulher. Sentados os dois. Apressara-se, estúpido, a apaixonar-se, e agora aquilo: aquela mulher aborrecia-o.
Poucas semanas haviam passado. Fora incompetente no acto de se apaixonar. Não faço bem isto, pensava para si próprio, como alguém que se recrimina por não estar apto a executar determinada função técnica. Como alguém que não sabe consertar um rádio, que não percebe os mecanismos de uma máquina.
Aproximou-se de um vaso. Cozinha estúpida, casa estúpida, e as plantas, para que raio quer ela uma planta?!
Agarrou com as duas mãos no pequeno tronco que crescia no vaso e puxou. A princípio alguma resistência, mas depois a planta saiu. Atirou-a para um canto.
As raízes deixaram terra atrás de si. Imaginou que aquele era o sangue da planta, a terra; mas não se sentiu um criminoso, sentiu-se um jogador, alguém que brinca.
- Sangue - gritou – a planta está a deixar cair sangue na cozinha!
A mulher veio a correr, ficou parada junto à porta. Ele escavava com as duas mãos e atirava a terra para fora do vaso.
A rapariga começou a chorar, quase não se ouvia; não se mexia.
Ele continuava a tirar terra. Depois pôs as mãos dentro do vaso, no espaço agora aberto.
Ela não se mexeu. Estava parada, à entrada da cozinha.
- Estúpida. Põe terra por cima das minhas mãos. Vá, estúpida. Gostas de mim?
Ela aproximou-se e com as duas mãos pôs terra de novo no vaso. Isso, disse ele.
As duas mãos agora cobertas de terra, já escondidas. Para ela pôr mais terra em volta dos punhos, gritava.
Os dois pararam. A mulher como que abrandou de chorar; e ele calou-se.
As duas mãos enterradas por completo no vaso.
Ele perguntou: Já posso sair daqui?
Gonçalo M. Tavares
o "verbo"ser...
Somos Uma Surpresa Para Nós Próprios
Como serão em privado as pessoas que conhecemos? Quanta surpresa se o soubéssemos. Porque nós, instintivamente, tendemos a julgá-las idênticas dentro e fora de si. Mas o que somos por fora é o que aceitamos que o seja e é o que os outros estabeleceram. Tal fanfarrão na praça pública pode ser um chilro piegas quando lá não está ou um medricas quando a coisa é a sério (Não dizia Aristóteles que os grandes atletas eram maus soldados?). Ou inversamente. O que aceita para si a imagem exterior de um mole, de um tíbio, de um encolhido de comportamento - no interior de si, e quando for caso disso, pode ser um obstinado de dente rilhado. Há um estilo de se ser que se adopta por convenção generalizada, orientação de uma época, obrigação protocolar no modo de nos manifestarmos.
(...) As regras de comportamento em grandezas chegam só à porta da rua ou ao menos da do quarto ou seguramente à da casa de banho. E daí para dentro, vale tudo, ou seja a regra somos nós. E é então que sabemos quem somos ou quem é aquele que consentimos que seja ou em que medida respeitamos em nós o que respeitamos nos outros. Mas nem é preciso talvez entrarmos na nossa intimidade. Quanta farófia se não desfaz em caca quando entra a polícia? Como se aguentaria ela, frente a um pelotão de fuzilamento? Mas o mesmo tipo revelado em fraqueza e enrolado de timidez poderia revelar-se em coragem quando a coisa fosse a doer. Tudo é tão casual. Somos tanto a invenção de nós em cada momento. Tudo é tão em nós uma fortuita conjugação de astros. Somos tão surpresa para nós próprios. Para a coragem ou o amor ou a verdade ou mesmo a inteligência. Ou o simples estar vivo.
O Que Somos Não É
Mas há momentos, nunca o pensaste?, há momentos em que tudo se nos abisma até à fadiga. O desânimo sem fundo. A vertigem para lá de qualquer significação. Nós somos o artifício de nós. Mas é aí que construímos a legitimação de se existir. Somos duplos do que somos e por baixo da camada que nos torna plausíveis há uma outra realidade que revela o plausível em ficção. O que somos não é. O que somos é o que resta depois de tudo se dissipar. O falso de nós é que é verdadeiro. Ou ao contrário, não sei.
A maioria dos homens gasta a melhor parte da sua vida a tornar a outra miserável.
Marcel Proust





